As mutações que acometem as aves

As mutações que acometem as aves é o resultado do esforço coletivo de todos os usuários que inseriram e inserem valiosas informações que beneficiam não somente aos demais usuários, mas como toda a comunidade de observadores de aves, ornitológica e visitantes em geral. A todos os que dispensaram um pouco do seu tempo para compartilhar o seu conhecimento, muito obrigado.

Introdução

Como todo ser vivo as aves podem ser acometidas por diversas deformidades e alterações físicas, sobretudo cromáticas, que podem ser fruto de disfunções hormonais, alimentação inadequada ou deficiente, mas principalmente, de mutações genéticas, que provocam uma mudança na coloração das penas e, às vezes outras partes do corpo. Geralmente essas mutações atingem genes codificadores de algum pigmento, que deixa de ser produzido, ou passa a ser produzido em maior ou menor quantidade. No caso das aves, as diferenciações que ocorrem na plumagem podem tornar os indivíduos muito especiais e chamativos.

O indivíduo mutante na natureza

É difícil definir com precisão o comportamento que o indivíduo mutante terá em relação a outros da mesma espécie, já que as divergências entre os registros desses indivíduos são várias. Alguns indivíduos estudados são caracterizados como pouco sociáveis a outros da mesma espécie, outros são considerados como indivíduos que interagem com o bando do mesmo jeito que os indivíduos normais. Já na relação ave/humano, os leucísticos e albinos, por exemplo, geralmente são mais arredios quando comparados a outros espécimes. No caso do melanismo, os indivíduos não têm o comportamento afetado, existindo espécies cujo melanismo é uma variedade estabelecida, de forma que os indivíduos melânicos interagem e se reproduzem normalmente com os não-melânicos.

Noções básicas de cores e pigmentos

Cores

Existem dois tipos de cores básicas (pigmentos eutróficos verdadeiros) que podem ser observadas nas aves:

OBS: As colorações azul, verde e violeta são definidas de acordo com a luz que tem contato com as penas.

Pigmentos

Leucismo

Leucismo é uma deficiência de fundo genético que ocasiona alterações no corpo dos indivíduos acometidos. Leucismo é caracterizado pela perda completa do pigmento melanina (dos dois tipos eumelanina e feomelanina) nas ESTRUTURAS DE COBERTURA da pele (penas, pelos ou escamas) mas sem perda de melanina cutânea (olhos, mucosas, derme), deixando-os com a coloração branca. É causada pelo bloqueio da síntese de melanina, caracterizado por alelos mutantes, discrepância na expressão de genes impedindo a pigmentação das estruturas afetadas. No leucismo, a ave afetada perde tanto a melanina quanto os pigmentos carotenóides ou a psitacina. Esta mutação pode ocorrer de forma total ou em somente partes do corpo do indivíduo. Espécimes irregularmente manchados são também denominados “arlequim” (arlequinismo).Se o indivíduo for completamente branco (com a derme pigmentada) é um Leucistico; sendo predominantemente branco mas com manchas de outra cor, é um leucistico com Arlequinismo normocronico; Se a cor dominante for a normal para a espécie mas há manchas leucisticas, classifica-se como normocromico com arlequinismo leucistico. Mesmo indivíduos leucísticos completamente brancos podem ser diferenciados de indivíduos albinos: a cor do olho no primeiro é normal, enquanto no albino os olhos são vermelhos. Os animais leucísticos não são mais sensíveis ao sol do que qualquer outro. Pelo contrário, são mesmo ligeiramente mais resistentes, dado que a cor branca possui um albedo elevado, protegendo mais do calor.

Leucismo

Albinismo

O Albinismo se caracteriza pela perda total dos pigmentos, tanto da melanina quanto dos carotenóides, podendo ocorrer em todo o corpo ou em partes dele. Diferentemente do leucismo, onde apenas as penas perdem a coloração, o indivíduo albino apresenta-se com coloração branca, bico e patas mais claros e os olhos, por não possuírem coloração, apresentam a cor vermelha dos vasos sanguíneos. Um indivíduo albino possui baixa resistência, principalmente ao sol, apresentando visão mais fraca e, às vezes, fotofobia.

Albinismo

Melanismo

O melanismo se consiste no aumento da produção de melanina, conferindo coloração mais escura ao indivíduo. Indivíduos melânicos se associam normalmente com outros indivíduos da mesma espécie, já que o melanismo não traz doenças associadas como o albinismo.

Melanismo
O caso dos rapinantes

No caso de algumas espécies de rapinantes, os indivíduos melânicos são chamados de indivíduos morfo escuro, fase escura, ou o termo em inglês “dark morph”. Nesse caso, a mutação não surge ao acaso, sendo que ela já está estabelecida. Numa mesma ninhada é possível haver indivíduos melânicos e não-melânicos. Os rapinantes “morfo escuro” apresentam essa coloração pelo resto da vida. O melanismo nesse caso dificulta a identificação das aves em campo, já que essas possuem uma coloração diferente da original e podem ser confundidas com outras espécies.

Dentre as aves de rapina brasileiras já foram registradas as seguintes espécies com morfo escuro:

Cianismo

O cianismo consiste na perda dos pigmentos carotenóides ou das psitacofulvinas, que geralmente dão cor amarela, vermelha, laranja, dentre outras. Nesse caso, o indivíduo passa a apresentar apenas a melanina, mostrando cor azul. É mais comumente observado em Psittacidae do que em outras famílias, já que eles frequentemente apresentam coloração verde formada pela combinação da cor amarela proveniente da psitacofulvina combinado à cor estrutural azul proveniente da melanina.

Cianismo

Esquizocromismo

Também conhecido como esquizocroísmo, é a ausência total ou parcial de melanina. No caso de ausência total, existem os carotenóides, pigmentos coloridos que vão do amarelo ao vermelho (por isso a cor dos que apresentam essa mutação) e também protegem do excesso de luz. Existem duas classificações de esquizocromismo:

Flavismo

A ausência parcial da melanina (nesse caso ainda pode ser observado um pouco da cor original da ave), porém presença de pigmentos carotenóides. A ave flavística ou canela se apresenta com a coloração diluída, devido à perda parcial de melanina, tanto da eumelanina (pigmento negro) quanto da feomelanina (pigmento castanho).

Flavismo

Lutinismo

Lutinismo é a ausência total da melanina, mas com a presença de pigmentos amarelos e/ou avermelhados. Aves lutinas apresentam penas geralmente amarelas e olhos vermelhos. Geralmente, os pigmentos amarelos/vermelhos são decorrente da deposição de carotenoides nas penas. Isso é verdade para a grande maioria das aves, mas não para os Psittaciformes. Essas aves apresentam psitacofulvina como pigmento amarelo/vermelho, que também é conhecida como psitacina.

Luteinismo

Outras mutações

Existem mutações que apenas modificam a coloração de uma parte da plumagem em particular. São mais comuns em aves domésticas. Exemplo desse tipo de mutação é a mutação opalino em psitacídeos. Em Agapornis roseicollis, por exemplo, essa mutação provoca um aumento da área rosada da face do animal, estendendo-a até a nuca e pescoço. No periquito australiano (Melopsittacus undulatus), essa mutação provoca, principalmente, a diminuição das marcações negras. Em aves cuja criação em cativeiro ocorre à muito tempo, como o diamante mandarim (Taeniopygia guttata), essas mutações são bem comuns. Nos diamantes mandarins ocorrem dezenas dessas mutações. Em aves selvagens essas mutações são muito raras.

Possíveis mutantes

As mutilações não incapacitantes

As mutilações não incapacitantes são aquelas causadas por fatores naturais (brigas, doenças adquiridas ou genéticas, etc.) ou geradas pela ação humana e que, embora tragam alguma limitação ao indivíduo e podem ser preponderantes para a sua sobrevivência, dentro das condições básicas lhe permitem buscar o alimento ou cortejar, fatores preponderantes à manutenção da espécie.

Mutilações não incapacitantes acidentes

Como todo ser vivo as aves estão sujeitas a sofrer acidentes que podem vir a causar algumas deformidades. As maiores ameaças para elas são Não raro nos deparamos com casos de aves atropeladas, mutiladas por linha de cerol e mesmo intencionalmente. Dificilmente uma ação da natureza virá a causar uma deformidade permanente em um indivíduo. Fatores naturais que podem vir a ter tais resultados são mudanças climáticas bruscas, queda repentina de uma árvore, cheia repentina de um rio, queimada por queda de raio ou outra causa natural, etc.

Brigas não são acidentes!

Podemos considerar as brigas entre as aves causadoras de mutilações mas não são elas, em si, acidentes. Brigas na natureza são fatores importantes utilizados pelos animais de modo instintivo para proteger o seu território, a prole ou outro indivíduo do bando; conquistar uma parceira ou o domínio sobre o grupo. Logo, as marcas deixadas por essas contendas são marcas da busca por sobrevivência e perpetuação da espécie, sempre aconteceram e por piores as consequências causadas fazem parte da muitas vezes incompreensível força da natureza.

Mutilações não incapacitantes causadas por fatores naturais

Galeria de fotos

Exemplos de aves leucísticas

Aves da família Turdidae
Aves da família Furnariidae
Aves da família Troglodytidae
Aves da família Icteridae
Aves da família Thraupidae
Aves da família Tyrannidae
Passeridae e Estrildidae
Aves da família Rallidae
Aves da família Laridae
Aves da família Charadriidae
Aves da família Falconidae
Aves da família Columbidae
Casos mais raros

Exemplos de aves albinas

Casos de albinismo

Exemplos de aves lutinas

Casos de luteinismo

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Exemplos de aves com flavismo

Aves da família Tyrannidae
Aves da família Turdidae
Aves da família Thraupidae
Aves da família Troglodytidae
Aves da família Psittacidae
Aves da família Strigidae
Aves da família Trochilidae
Aves da família Thraupidae
Aves da família Coerebidae
Aves da família Columbidae
Aves da família Icteridae
Aves da família Falconidae
Casos mais raros

Exemplos de aves com cianismo

Cianismo

Exemplos de aves melânicas

Casos de melanismo

Rapinantes melânicos (morfo escuro)

Gavião-de-cauda-curta
Gavião-de-rabo-branco
Uiraçu-falso
Caracoleiro
Gavião-do-banhado
Gavião-carijó

Referências

https://journal.ufsc.br/index.php/biotemas/article/view/2175-7925.2009v22n1p161/18775 Acesso em 27 ago. 2013